Lenda do João Maria, o Monge da Lapa

Segundo a lenda de João Maria, entre fins do século XIX e a primeira década do XX, o campo brasileiro viu-se sacudido por alguns movimentos populares. De norte a sul surgiram manifestações de cunho religioso, como se o país despertasse de uma enorme letargia.

No interior do Paraná, uma figura que aparecia envolta em mistério, antes e durante os conflitos pela posse da terra na região sul do estado, na divisa contestada por Santa Catarina, foi um andarilho conhecido como o Monge da Lapa. Na verdade, foram três os monges que frequentaram a região, em momentos críticos da história de nosso país.
O primeiro surgiu em meados do século XIX, na década de 40, pouco depois das revoltas liberais que sacudiram o Brasil e pouco antes do término da Guerra dos Farrapos.
O segundo marcou sua presença nos anos próximos à abolição da escravidão e do advento da República; em meio à Revolução Federalista temos o seu primeiro registro concreto.
Finalmente, José Maria, o terceiro monge, surgiu em 1912, quando a Primeira República incentivava largamente a imigração e a construção de estradas de ferro, com contratos altamente vantajosos para as construtoras.

Várias são as lendas que permanecem na memória de moradores do interior paranaense e que acabaram por conquistar as cidades, localizando-se em diversas camadas
da população, trazidas pelo êxodo rural. Muitas das localidades de Santa Catarina, apontadas a seguir, pertenciam ao território do Paraná e foram repassadas ao estado
vizinho após acordo que ratificou a divisão da região contestada, à época do presidente Wenceslau Braz, em 1916.

São lendas que dizem respeito à origem dos monges, lendas sobre profecias, punições, milagres e prodígios e finalmente lendas relativas ao fim dos monges. Estas
lendas confundem os monges que as praticaram ou sofreram, sendo atribuídas ao monge simplesmente.

As lendas sobre profecias são também bastante extensas, a começar de seu próprio desaparecimento, quando terminasse sua missão, no morro do Taió, hoje território
de Santa Catarina. Previu o aparecimento de uma cidade no local em que estava, o que efetivamente se deu após a definição do litígio sobre a fronteira; seu nome, segundo o monge, seria Santa Cruz, e a cidade chamou-se Cruzeiro e hoje é o município de Joaçaba, SC.

Teria previsto o advento da República alguns anos antes. Previu também os trens e os aviões, no estilo dos antigos profetas. “Linhas de burros pretos, de ferro,
carregarão o pessoal”. Depois deles, as guerras com as derrotas sucessivas dos sertanejos e “gafanhotos de asas de ferro, e estes seriam os mais perigosos porque deitariam as cidades por terra”.

Chegando a uma casa onde uma mãe acabara de dar à luz, reclamou o batismo da criança recém-nascida e somente depois lhe foi contado que a parturiente havia feito
promessa de dar o nome de João Maria e convidar o monge para padrinho, se fosse feliz na hora do nascimento.

Existem as histórias relativas ao queijo. Conta-se que pedindo um pedaço de queijo em uma fazenda, este lhe foi negado, tendo então repetido a profecia feita para
Canoinhas, anunciando o fim da prosperidade da fazenda.
Conta-se que uma senhora querendo dar ao monge um queijo, tendo falado a este respeito com seu marido, ordenou-lhe este que lhe fosse dado um outro menor versão diz menor e podre). Segundo uma narrativa teria o monge aceitado apenas um pequeno pedaço do queijo, jogado fora mais da metade, por adivinhar a má vontade do
dono. Outros comentam que sendo podre o queijo, João Maria o levou e escondeu sob uma pedra, ou o esmigalhou no pasto, ainda dentro da propriedade do tal fazendeiro.

Em todos os casos, a prosperidade da fazenda desandou, chegando, em uma das versões,toda a família à loucura, ou morrendo o fazendeiro na mais miserável pobreza.
Às regiões de pouca fé do povo, predisse pragas, dizendo que aqueles que quisessem salvar suas roças deveriam plantar aquilo que desse sob a terra (tubérculos) – o
que realmente aconteceu em Taquara Verde, município de Porto União, SC. Predisse que a localidade de Vila Nova do Timbó, por seu povo ateu, se transformaria num porungal, ou seja, suas terras perderiam a fertilidade. O lugarejo teria realmente regredido.

Ao ser preso na Lapa, predisse castigos dos céus e um violento temporal sobre a cidade. Em duas cidades diferentes, Hamburgo Velho (RS) e outra do Paraná, ao ser
apedrejado por crianças que o tomavam por mendigo, perdoou às crianças, mas disse, serenamente, que as cidades seriam apedrejadas como ele. Em ambos os casos, dias
depois, uma chuva de granizo arrasou as plantações, castigando a cidade. Tal evento teria também acontecido na Lapa.

Com relação às fontes, contam-se duas lendas de caráter punitivo. Uma seria uma água abençoada por ele, com a previsão de que não se entrasse na fonte para se banhar.
Duas prostitutas, tendo ignorado o aviso, banharam-se para curar algumas feridas, o que provocou o ressecamento imediato da fonte.

Nas proximidades da Lapa, uma família tendo comprado uma propriedade, que tinha em suas terras uma fonte benzida, e não crendo no poder da água santa, cercou a
área, proibindo a entrada de intrusos. Ao mesmo tempo, ateou fogo ao cruzeiro e ao pinheiro que havia no pouso. Como resultado, perdeu todas as suas posses e ficou louca.

Existia a crença de que em meio às tempestades, o monge permanecia sentado ao relento, mas que não se molhava, bem como nos lugares de determinadas cruzes.Conta-se também que podia estar em dois lugares diferentes, orando em sua gruta e ao lado de uma doente que invocava por ele. Conta-se que podia ficar invisível
aos seus perseguidores, atravessar a pé sobre as águas dos rios, e que suas cruzes cresciam – não só o corpo, como também os braços – ou brotavam 40 dias após o monge
tê-las levantado.

Bastões, com a “medida do monge”, fincados em cada extremo de uma fazenda protegiam o gado contra doenças. As velas, feitas na medida do palmo do monge, afugentavam
os maus espíritos e acalmavam as tempestades.

Conta-se que o monge era imune aos índios e às feras, não sendo jamais atacado por elas. Diz-se também que fazia surgir olhos d’água nos lugares onde pousava. Da
mesma maneira, podia se fazer transportar no ar ou desaparecer quando a multidão que o cercava crescia em demasia.

Teria curado adultos e crianças já à morte com infusões de uma planta chamada vassourinha e rezas. Em Mangueirinha e na Lapa, se contam casos de curas milagrosas de dores de dentes.

Conta-se que uma senhora ofereceu uma galinha ao monge, que não aceitou o presente por ele ter sido dado antes ao diabo. A mulher teria se referido à ave como “galinha do diabo” ao ter esta sujado seu vestido no caminho para a pousada de João Maria, ou praguejado dizendo “que o diabo a carregue”, por não ter conseguido pegar no terreiro, só o fazendo horas depois.

João Maria teria sido convidado a comer batata-doce com leite com uma família, a qual havia incumbido uma escrava de colhê-las.
A escrava teria dito que a maior seria dela e não do velho mendigo. Na hora do jantar, todas as batatas da mesa, o monge se recusou a comer a melhor das batatas-doces, por já possuir dono.

Pernoitando na dita fazenda, pediu ao amanhecer um cavalo ou burrico, para atender ao chamado de um doente distante. Pedindo um animal manso, foi lhe dado um manco, o qual na volta da jornada não portava nenhuma deficiência no andar. João Maria teria debelado, ainda, uma epidemia de varíola em Rio Negro, afastando a peste
com rezas e com 14 cruzes plantadas como Via Sacra na cidade. Ainda hoje existe uma das cruzes na cidade: chama-se cruz de Mafra.

João Maria teria dito que ao final de sua peregrinação iria para o morro do Taió, região que se sabia habitada por índios hostis, os botocudos. Após a sua morte, seu espírito teria aconselhado um viajante de Guarapuava que foi à sua procura no morro.

Outra tradição diz que morreu de velhice em Araraquara (SP), ou que foi encontrado agonizante próximo aos trilhos da estrada de ferro perto de Ponta Grossa. A crença
mais difundida é, no entanto, que não teria morrido. Após jejuar por 48 horas no Taió, o monge teria sido levado por dois anjos para o céu. Em outra hipótese, seu corpo teria se envolvido em luz tão forte que o fez desaparecer, deixando uma marca vermelha no chão, que os incrédulos confundiam com sangue.

Conta-se que em um momento de descanso o monge saciava a sua sede num riozinho que corta a nossa cidade. Confundia-se com um verdadeiro andarilho, pois andava mal trajado, barbas longas e cabelos descuidados. A molecada, num gesto de provocação e malcriação atirou-lhe pedras; o que deixou o monge extremamente irritado.
Por isso, ele rogou uma praga: “esta cidade se desenvolverá somente de um lado do rio e o outro estará fadado a um futuro sem prosperidade”. Misteriosamente a
profecia vem se realizando, pois a cidade de Campo do Tenente está crescendo somente para o lado abençoado e apontado pelo monge.

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